Destaques

Seguem abaixo alguns destaques e reflexões sobre as experiências vivenciadas na trajetória do Núcleo Experimental de Educação e Arte do MAM-Rio.

Programa em Família I
Virgina Mota

“O Programa em Família do Núcleo Experimental no MAM Rio passou a fazer parte de nossas vidas, tornando possível o pensamento com arte e com ele não separar o humano do divino, a magia da realidade, o visível do invisível. A expressão gaélica Anam Cara, Amigo da Alma, expressa verdadeiramente cada um integrante do Núcleo. Um professor, um parceiro, um companheiro era considerado por Anam Cara, uma amizade que ultrapassava qualquer fronteira, qualquer plano.”  

(Testemunho de Fernando Nascimento de Souza, pai de 11 filhos, participante em mais de 15 encontros deste programa.)

Um salto qualitativo de uma ação, dá-se quando aqueles que nela participam tomam as rédeas de suas próprias palavras, não para projetar um ideal, mas sob a forma de descrição revela um resultado. Vem, assim, falar do que se deu, contar por si o que aconteceu, de um passado. Esse passado teria ainda uma permanência. Experiência tomada pela transformação do olhar mais atento, uma filosofia prática se revela, um envolvimento entre todos e em cada um: eis quando se vê, posteriormente, o lado demonstrativo do salto.

InVento | Foto: Raniere Figueiredo

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Pra você desejo
Bernardo Zabalaga

“Para você,
Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.”
(Carlos Drummond de Andrade)

Há no ato de desejar uma espécie de prece. Um silêncio. É um movimento que apela ao interior, seja soprando uma vela ou apertando um cílio no dedo de alguém a regra é – sentir por dentro. Mas desejar em público é como soltar um pequeno pedaço de nós, é como esticar o braço e tocar o infinito. Promovendo no desejo conjunto uma sinfonia de vontades, de pedidos, de súplicas de todas as cores e tamanhos.

“Olá meu nome é Bernardo e trabalho no Núcleo Experimental de Educação e Arte aqui no museu e estou propondo uma atividade poética…”
Nos olhares que voltavam senti receio, medo, estranhamento, alegria, barreiras, fluxo, suavidade, ânimo…
Ainda acrescentava: “é só um minuto… é fácil… é só escrever no papel é segurá-lo nessa fita e deixá-lo ao vento…”

Pensei na Yoko Ono,
Lembrei daquelas arvores japonesas,
Chovia,
Usei os pilotis como suporte,
Propaguei uma onda,
Abri sem muito pudor o espaço privado,
Chovia,
As pessoas desejam de tudo,
Nem todos têm coragem ou vontade,
Outros por demais…

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Programa em Família II
Leonardo Campos

Na sala de jantar, familiares em silêncio, não conversam. Na sala de estar, as luzes da tv escurecem os olhares entre pais e filhos. O que impede que membros de uma família de estarem efetivamente e afetivamente juntos? As palavras e gestos afetivos diluem-se na ordem do cotidiano, as preocupações corriqueiras desviam a atenção que deveriam ser destinada aos pequenos grandes momentos valiosos para o silêncio entre os membros de um família. Não há mais tempo nem espaço para pais e filhos estarem juntos. Toda a gama de obrigações e compromisso rouba o tempo de convivência entre os familiares.

Ao longo de 2011, o Programa em Família promoveu uma diversidade de encontros dentro e fora do museu relacionando a arquitetura e o espaço urbano com a coleção e as exposições temporárias. Porém, ao mesmo tempo que este objetivo era trabalhado, uma nova dimensão das ações do Núcleo Experimental tornava-se visível. Criar um espaço-tempo através de experiências lúdico-criativas que trabalham com novos modos de ver e ouvir, em um ambiente de horizontalizadade onde os membros de um família permitem-se a falar, ouvir e fazer sem graus de hierarquia.

Esta nova dimensão é bem simbolizada por um objeto bem simples que foi utilizado com grande freqüência em nossos encontros, a lupa. Um dos exercícios praticadas foi a observação do espaço através da lente. A curiosidade das crianças com a novidade deste objeto o fazem aponta-lo diretamente para seus pais. Ao fazer isso, sem saber conscientemente, a criança enquadra e mira em sua lente a imagem de seu pai ou mãe, como se desejasse ampliar as virtudes de seus progenitores. A lente esférica converge os dois olhares, tornando o observador em observado, e vice-versa. Ligados tanto pela laços afetivos quanto pela lente da lupa, a família lança novos olhares para si, reconhecendo-se como unidade familiar, afastando o silêncio e o vácuo, aproximando a distância entre pais e filhos, marido e mulher, e irmãos.

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Território descoberto (e ampliado)
Gleyce Kelly Heitor

“e fruir peripécias de passagem.”
(Carlos Drummond de Andrade)

No teatro, peripécia é o instante da mudança de destino da personagem – como a passagem da felicidade para a tristeza, ou vice-versa – é o instante que provoca a catarse. Sendo assim, fruindo peripécias de passagem, oportunizamos que professora e alunos do CIEP Federico Fellini optaram por vir ao MAM de metrô, desfrutando desta mudança para expandir nosso território de descobertas.

Nos encontramos no pátio da estação Carioca, e seguimos nossa exploração: a partir da Praça do Mosteiro de Santo Antonio partimos, mapeando memórias, desestabilizando noções e percebendo diferentes modos de práticas dos espaços, que foram por nós observados e emoldurados. Destacamos os elementos que constituem aquela paisagem: pessoas (estrangeiros, mendigos, trabalhadores, passantes), monumentos (O passante de José Resende, o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o cinema Odeon), lugares de passagem (metrô, bares, bancos, telefones públicos), perigos (bueiros, trânsito, pessoas “más intencionadas”) e assim a história de cada um foi se sobrepondo ao caminho e compondo uma cartografia de afetos e memórias (com, sobre e do) centro.

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Programa em Família III | Crianças no Museu
Ignês Albuquerque

O programa em Família após um ano de vida celebra a alegria e energia criadora que as famílias e suas crianças compartilharam com o Núcleo Experimental de Educação e Arte do Mam, transformando o museu em ponto de encontro, espaço de experiências e descobertas, conversas, brincadeira – território de afeto e criação!

Segundo Walter Benjamim, a criança cria cultura e nisso reside sua singularidade. Construindo com pedaços, refazendo a partir de resíduos ou sobras. Nas brincadeiras elas estabelecem novas relações e combinações. As crianças viram as coisas pelo avesso e, assim, revelam a possibilidade de criar.

“Só o devaneio pode despertar essa sensibilidade.
…as coisas, as doces coisas reencontrarão cada qual o seu sonhador?”
(Coisário – Gaston Bascherlard)

Prezado visitante – aqui todas as coisas estão disponíveis para se tocar!

E foi assim, que nos encontros fomos colecionando experiências compartilhadas respostas criativas e poéticas de crianças de todas as idades.

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DouAções – Basemóvel Levo Mesa B
Bebel Kastrup

Basemóvel Levo Mesa B, merece um destaque especial em 2011. Este foi um projeto concebido pelos artistas Vitor Cesar e Enrico Rocha a partir da demanda de desenvolverem uma ferramenta conceitual e prática ativadora de espaços de convivência para as ações itinerantes do Núcleo Experimental de Educação e Arte, dentro e fora do MAM.

No seu lançamento, no DouAções de dezembro, depois da apresentação do processo de criação dos artistas, o público foi instigado a pensar o que desejaria fazer com a Basemóvel, experimentando suas possibilidades em diversos espaços do museu com diferentes materiais e ainda brincando com outros exemplos de palíndromos.

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Paisagem Invisível 
Anita Sobar

A metáfora da nuvem serve para elaborar o estatuto das coisas indeterminadas; como a beleza do vento soprando nas arvores, o lençol branco estendido em um varal para secar ao sol. A paisagem invisível. O invisível não é, porem, alguma coisa que esteja para além do que é visível. Mas é simplesmente aquilo que não conseguimos ver. A nuvem, esse corpo sem superfície e sem contorno é o objeto do pensamento quando ele assume a relatividade que o afeta.

Como fazer o olhar recuperar a paisagem?
Começamos o percurso debruçados sobre o mar, investigamos, sentimos e desvendamos a paisagem. Fechamos os olhos para escutar, sentir o cheiro e ver o que não se pode ver. Coletamos sombras para desenhar o jardim de Burle Marx e marcar o tempo.  A partir do exercício poético experimental – do olho que transforma muro em nuvem – mapeamos os diferentes pontos de vista dos alunos para o novo lugar visitado e o cruzamento entre diferentes espaços e tempos que constitui a paisagem da cidade. O passado então repercute no momento presente. E o que fica como registro afetivo? É preciso que aquele que vê não seja mais estranho ao mundo que ele olha.

Ítalo Calvino, Cidades Invisíveis (São Paulo: Companhia das letras,1990)
Nelson Brissac Peixoto, Paisagens Urbanas ( São Paulo: SENAC, 1996)
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Encontros com a monitoria: atenção às múltiplas vozes.
Ana Paula Chaves

Na música, a relação entre os sons sobrepostos é chamada de harmonia. Isso acontece, por exemplo, quando em um violão são tocadas várias cordas ao mesmo tempo. Os sons gerados por cada corda tocada simultaneamente são chamados de ‘vozes’. Ao deslocar esta imagem para a esfera do trabalho, a princípio, perceberemos o mesmo caso. Diferentes vozes que atuam juntas com um objetivo em comum. Sabemos que tanto na harmonia musical tonal como nas relações de trabalho, estas vozes se organizam verticalmente, obedecendo a normas, ‘acordes’. No entanto, existe um outro tipo de textura musical conhecida como polifonia, que nos faz perceber que mesmo ao unir várias vozes em uma composição, estas podem se movimentar de forma independente. Deste modo, a relação entre as vozes é também horizontal. Duas ou mais melodias são tocadas juntas, com momentos de intersecção, encontros, vãos e contrapontos. O desafio de escutar uma música polifônica é tentar apreender as melodias das diversas vozes. Não é uma tarefa fácil identificá-las. É um sistema complexo. É preciso tempo, escuta e, sobretudo, atenção para cada fala.

O museu é composto por múltiplas vozes: artistas, curadores, público e todos os profissionais visíveis e invisíveis que fazem este lugar acontecer. Muitos estão ali passageiros, como os monitores que permanecem poucos meses no museu e atuam diretamente no contato com as exposições e com o público. Porém o tempo é uma medida muito relativa. São temporários, mas o número de horas corridas que permanecem diariamente no museu é extenso, o que possibilita um acúmulo de passagens significativas para a história cotidiana deste lugar, mesmo obedecendo à lógica operacional e silenciosa de sua função.

Nosso interesse, inicialmente, é conhecer as várias vozes que compõe o museu. Em 2011, os “Encontros com a monitoria” iniciaram este percurso de acolhimento e (re)conhecimento mútuo do público interno do Museu de Arte Moderna e o Núcleo de Experimental de Educação e Arte, cuja pretensão este ano (2012) é inaugurar um novo território descoberto, um território composto por múltiplas vozes que atuam também como protagonistas desta história.

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Seminário Reconfigurações do Público: arte, pedagogia e participação
Ana Clarissa Fernandes

Seminário Reconfigurações do Público: arte, pedagogia e participação, buscou ampliar as possibilidades de discussão a cerca desse universo temático tendo o museu como figura perpassada por esses campos. Tendo em vista a diversidade e os múltiplos entendimentos da arte, educação e participação, assim como as possibilidades geradoras a partir do contato desses eixos com outras questões como: perspectivas curatoriais, práticas artísticas e sócio-culturais, relação com instituições e com a esfera pública; o Seminário se preocupou em compor suas mesas-redondas, oficinas e grupos de estudo com curadores, críticos, artistas e educadores que correspondessem a necessidade do diverso e dos diferentes pontos de vista que esses necessitam.

Além disso, o Seminário, junto à sua potência de não acabar em si próprio, de se desdobrar em outros encontros e diálogos que abarquem o debate sobre arte e educação, que hoje se faz necessário, foi importante para o Núcleo como momento de alimentação das discussões sobre o trabalho que a própria equipe desenvolve.
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