Encontros Multissensoriais – O museu à escuta

No primeiro Encontro Multissensorial do ano de 2013, o grupo visitante Abrigo Sodalício da Sacra Família não conhecia o MAM e foi recebido pela equipe do Núcleo Experimental com o mesmo cuidado e acolhimento que imprimem uma característica particular ao nosso trabalho. A primeira proposta que surgiu foi dividir o grupo em duplas de cegos e videntes, seguindo as premissas propostas no roteiro, começando a visita pela escultura do artista Franz Weismann nos jardins do MAM. Durante o tempo de exploração da obra, notou-se que muitos dos participantes associaram a sua forma com a de uma “casa”, mas não qualquer casa, uma “casa diferente”, sem paredes, apenas “portas” e/ou “janelas” sempre abertas, não determinado um lugar de entrada e saída desta casa, mas apenas espaços abertos ao encontro, brincadeira, imaginação…
Interessante pensar que este conceito surgiu do próprio coletivo, não tendo nenhum dos educadores presentes instigado a associação da escultura ao simbolismo da casa; no entanto, sabe-se que esta obra permanente do jardim está continuamente sendo “ocupada” por moradores de rua, que fazem dela e do seu redor o seu abrigo; e que ainda, um dos motivos que nos levou a escolher esta obra para começar o encontro é que ela nos servia como uma metáfora potente para discutir “onde começa o museu”, os conceitos de sua arquitetura modernista, a relação intrínseca com a paisagem/cidade: proposta dos jardins do MAM como o “museu fora”, aberto, ao ar livre, em relação ao “museu dentro”, que preserva as exposições em ambiente fechado, códigos de conservação e nomeação das obras, regras de visitação e aproximação das mesmas, etc…
Quando passamos para o interior do museu, nos dirigimos até o terceiro andar para realizar o toque em três esculturas da exposição Genealogias do Contemporâneo: Franz Weismann, Amilcar de Castro e Ascânio. As duplas formadas para a visitação aos jardins foram re-organizadas, agrupadas em três grupos que se revezaram entre as obras. Uma das primeiras impressões que surgiram nesta segunda etapa do encontro foi a rápida leitura cognitiva das esculturas e direta analogia com a obra explorada anteriormente nos jardins: alguns dos participantes conectaram, através da forma e do material da escultura, apesar da diferença de escala e desenho, a autoria de Franz Weismann.

Novamente a imagem da casa como uma expressão do reconhecimento e interpretação da obra. Tal imagem surgiu com tanta força que foi associada a uma música de Vinicius de Moraes, cantada primeiramente por Paulina, ao pé do ouvido de Guilherme, quando nos dirigíamos para a entrada do MAM, e que foi recuperada, sendo cantada em pequeno coral durante o toque da escultura de Weismann na Coleção e depois, no final do encontro, por todo o coletivo:

A Casa
(Vinícius de Moraes) 

Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada

Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede

Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali

Mas era feita com muito esmero
Na rua dos bobos, número zero

Compreendemos que através da atenção ao outro, da construção de vínculo dentro de um grupo de pessoas que não necessariamente se conhecem a princípio, mas que a partir da mediação, exercício que é compartilhado como atividade desenvolvida pelo próprio coletivo, acreditamos que há uma transformação sensível nas relações daqueles que integram e interagem com os Encontros Multissensoriais – o grupo que realiza o encontro em si, mas também outros visitantes do museu afetados pela coreografia multissensorial, costumam se aproximar e acompanhar os nossos passos pelo museu. A potência pedagógica da obra de arte pulsa como conhecimento próprio de si, no encontro da alteridade quebrando barreiras que nos distanciam pela diferença para provocar aproximações, uma aprendizagem coletiva da arte, a arte como vontade de viver e criar.

Algumas questões mapeadas neste encontro:

  • Quando um Museu vira Casa e vice-versa? Quais circunstâncias criam essa afetividade e pertencimento possível?
  • Quando a Arte não é algo que precisa se impor ou afirmar, mas um convite para ser e estar, habitar mesmo que provisoriamente, no mundo compartilhando de diferentes formas de ver, entendidas além do sentido visual?
  • “Arte é coisa mental!”, exclamou uma das participantes. Assim, toda visualidade da arte é interna. Em uma instância mais profunda, há um “comum”  que podemos acessar.

Encontros Multissensoriais: O museu à escuta contou com a parceria do Prêmio PIPA
Produção: Matrioska Filmes
Direção: Luís Gustavo Ferraz

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Realização: 26 de janeiro de 2013

Saiba mais sobre: Encontros Multissensoriais: O museu à escuta
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